Passarinho

Lembra-se de quando você era um passarinho livre? Voava longe, sempre indo cada vez mais alto. De galho em galho se movia e conseguia construir um ninho firme, um lar onde repousar depois de um dia de luta. De sua boca as poucas migalhas que caiam era o suficiente para alimentar aqueles que estavam ao seu redor.


Suas assas se abriam com vigor e suas cores eram notadas de longe. Seu voo coloria o céu e rasgava as nuvens. Onde pousava deixava um belo canto que alegrava e consolava os corações dos passantes.

Lembra passarinho de quantas vezes os humanos pararam para te ouvir? E dos pedaços de pão que eles entregavam-lhe você fazia um banquete para aqueles que te esperavam no ninho. Lembra passarinho que nos dias de sol, suas asas eram sombra e abrigado e contra as fortes chuvas você era um escudo forte aos seus?

Você se lembra de que por incontáveis vezes o seu cântico trouxe paz? Você se lembra de quantas vezes você foi o responsável de fazer com que a tristeza de muitos fosse levada para bem longe, nas assas do vendo?

Lembra-se de quantas vezes aguentou três vezes mais do que o peso do seu próprio corpo? Você se lembra de quando era esse passarinho? De quantas pedras você se esquivou e de todos os dias que você teve que voar contra o próprio vento para poder sobreviver?

E das vitórias que contigo eram compartilhadas? Dos choros que suas penas enxugaram? Das provas que você transportou de um monte para outro? E de todas as vezes que você precisou migrar para regiões distintas e explorar novos ares, em busca de uma nova fonte de energia e alimento, tudo isso para não perecer à prova. Você se lembra passarinho?

Mas, diante de um grande vendaval suas asas não encontraram forças para migrar, você voou e já cansado não conseguia alcançar o seu objetivo. O caçador percebeu que sua fragilidade te tornara uma presa fácil. E o vento que era o seu lar, e as árvores que eram o teu apoio deram lugar pra uma gaiola pequena, onde agora você se encontra preso.

Oh, passarinho. Não é seu bico que não canta mais. É seu coração que está em silêncio. Não são suas asas que não voam mais. É o seu coração que se aquietou diante da adversidade do tempo. Mas um dia passarinho, se você lembrar de tudo o que já fez, uma rajada de vento muito forte abrirá as portas da gaiola. Não precisará fazer esforço algum. Apenas abra as suas asas e deixe o vento da alegria migrar o seu corpo pelo caminho de uma grande libertação.

Nesse dia, seu canto será novo, suas penas terão uma cor nova e você não se lembrará de quando tudo não passava de um silêncio profundo. Voe passarinho. Não haverá mais gaiola, nem inverno. Não haverá acusação e seu voo não será interrompido por caçadores.

Você ainda se lembra de quando era um passarinho?

Vinicius Lobo

Lembra-te

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